Moléstias Dérmicas | Texto Curatorial | Toilette
CCE - Centro Cultural España | Montevidéu, Uruguai
Manuel Neves | Paris, França | 2007

A obra de Victor Lema Riqué tem se desenvolvido em dois meios de expressão: a pintura e a narrativa de ficção.  Estes “meios” com tradições e lógicas internas diferentes, historicamente tem estado por momentos estreitamente ligados e também extremamente separados. No século XX, estos dois universos tem sofrido mudanças e experimentações extremas que tem contribuido a romper a fronteira entre os dois, fazendo irreconhecível a diferença entre eles. Victor Lema Riqué tem experimentado com estas fronteiras, contaminando um meio com o outro.

O resultado deste estreitamento é uma obra pictórica marcadamente narrativa e uma obra literaria totalmente visual, caraterizada pelo esforço permanente por contar histórias. Estas histórias se centram nas peripécias de individuos –mulheres e homens- que vivem numa grande urbe. Victor Lema Riqué, que vive faz vinte anos na cidade de São Paulo, conta histórias de individuos que sofrem das doenças –em um sentido amplo da palavra- que produz a vida frenética nas grandes cidades. Individuos atrapados entre a paranoia e os paradoxos da incomunicação.

Nos seus últimos projetos mais ambiciosos em suas formas e objetivos, o artista tem utilizado o video, a imagem fotográfica, e tem realizado ações performáticas e projetos de intervenção urbana.

O video apresentado nesta oportunidade, chamado “Toilette”, se instala na fronteira incerta entre a filmação de ficção e o registro performático, é parte de um projeto mais amplo mas funciona de forma autónoma.

A simples ação realizada pelos atores ou personagens –o mesmo artista e sua colaboradora Ondina Castilho- de se lavar a cara no que parece um banheiro público, é repetida uma e outra vez, transformando a atividada diaria, simples e anódina, símbolo de higiene e por tanto de saúde numa situação dramáticamente absurda. Essa tensão dramática se torna insuportável, é produzida por acumulação: a ação se repete e se repete, se extende no tempo quase indefinidamente. As eleições estéticas de uma iluminação de ambiente e o registro de um único plano estático, acentuam a incómoda sensação de estar vendo a documentação de uma ação em tempo real.

Este extremo realismo, que tensa ao máximo a fronteira do ficcional, não só construi metáforas sobre a condição do individuo urbano incapacitado para reconhecer a fronteira entre saúde e doença, senão que descreve as possíveis condutas desse individuo, alienado, ansioso e paranóico.

Manuel Neves, Janeiro, 2007