O Império do Poder | Texto Curatorial | Regular Coffe
Galeria Valú Oria | São Paulo, Brasil | 2006
Nancy Betts

O principio foi um conto escrito pelo próprio artista. Depois, o caráter que permeia as exposições de Victor Lema Riqué dominou o cenário: a diversidade dos sistemas de representação. A partir da matriz verbal, o artista dá visibilidade ao corpo de trabalho nas linguagens visual e sonora e no meio digital. Intertextos que, apesar de terem seus referentes autônomos, funcionam como códigos em co-prescença que dialogam e se complementam na totalidade da exposição. Na figuratividade destes modos de expressão está implícita uma ideologia, a crença de que hoje tudo é possível numa sociedade capitalista movida pela propaganda: enriquecer, ter acesso, status. O exemplo é a história de Roberto Imbríaco e seu produto regular Coffee. O título, na sua simplicidade e musicalidade, já é jogo estratégico e o logo é um sinal extremamente eficiente em potencializar a fixação do produto na memoria do consumidor. Nas pinturas, a divisão entre o “mundo real”  e o “mundo da ilusão” ganha significado por meio da manipulação da forma, da cor e do ritmo. Revela-se um conjunto de traços formais que instaura o tom que identifica a maneira do artista habitar o espaço. As cidades globalizadas parecem ter a mesma face, sejam antigas fábricas ou modernos arranha-céus, todas são construidas naquilo que se convencionou chamar da bad painting, a tosca linha e a pincelada escura e borrada são a estética propositalmente escolhida para produzir uma forma cujo efeito de sentido é de que a vida é o âmbito da incerteza, dos deslocamentos, e da solidão. Nas faixas de propaganda, a expressão se constitui na clareza e o brilho do dourado e na limpeza com hard edge. A palavra e a imagem, neste campo, são ancoragens de caráter analógico – pretendem ser cópia de uma “ certa realidade”.  Aqui, é o lugar da sedução, do glamour e da certeza, a garantia de poder-ter ou poder-ser. Se a pintura valoriza o espaço e a permanência dos objetos aí fixados, a linguagem do vídeo lida com a inestabilidade do tempo e da imagem. Nos videos, o conto é redesenhado e a narrativa ganha um tom irônico. A fala irônica pode ser apreendida em mais de um sentido, devido a uma subversão na coerência de valores estabelecidos pela introdução, na linguagem ou no gestual, de um elemento contraditório. Sem rechaçar acintosamente o que é dito, provoca uma ambiguidade na interpretação da história.  Os videos fazem uma ficcionalizão do que os programas de TV apresentam  como real, simulando a verdade. A verdade é assim. Qual verdade? A das palavras ou das ações? Que leitura deve prevalecer: o conselho ou o comportamento, a cultura pausterizada de Kelly Miller ou sua “falta de memoria”?

Os mundos, na arte, são realidades construidas e o artista deliberadamente aponta as fronteiras entre o irreal e a ilusão – os complexos modos de prescença no mundo contemporâneo. O paradoxo é que, na vida, o conto é realidade.

 

Nancy Betts. Março 2002