Elige tu própia aventura | Texto Crítico
Brecha | Montevidéu, Uruguai | 2017
Verónica Panella

No ano de 1843 e, no contexto do sitio de Montevidéu, os camisas vermelhas, comandados por Giuseppe Garibaldi, se preparam na “Isla de las Ratas” para atacar as forças do almirante Brown. Sentindo falta de um cavalo, o caudilho italiano decide apelar a efetividade de de um avião caça P-80 Shooting Star e os ânimos dos combatentes não se exaltam ao som de “I martiri nostri son tutti risorti”, senão com os acordes de Led Zeppelin. Como se fosse uma novela de história gráfica contrafatual fragmentada em vinhetas, a potente construção visual implícita na mostra “La vida de las personas extraordinárias” propõe com inteligência, ironía e múltiples referências culturais interpelar supostos identitários e construções históricas que, por familiares, acostumamos a dar por por absolutas e inalteráveis.

 

“… o que chamamos realidade, é o que fica e antigas imaginações.”

Jorge Luis Borges. Textos recobrados (1931 – 1955)

 

HISTÓRICOS PONTOS DE SUTURA. A meados da dédada de 70, num contexto de questionamento ao crescimento  tradicional de diferentes áreas de investigação, se reflexiona sobre a condição narrativa da história como disciplina e a partir deste lugar filósofos como Michel de Certau ganham simpatía (e antipatía) por parte dos que se dedicam a esta área de conhecimento, com o desenvolvimento  de conceitos que apontam a que “a historiografia (ou seja ‘histor’ e ‘escritura’) leva inscrita em seu nome próprio o paradoxo –quase o oximoron- de relação de termos antinómicos o real e o discurso” 2 . Mais do que negar a posibilidade de constatações científicas para o exercício de construção de conhecimento do passado social, esta postura tenta acabar com a miragem de acesso a certezas absolutas e a oficialização de uma “verdade”. É precisamente neste sentido de incerteza, onde as perguntas parecem ter mais importância que as respostas, que coincide o sujestivo jogo visual apresentado na sala 5 do Museo Nacional de Artes Visuales (MNAV) pelo uruguaio radicado en San Pablo Victor Lema Riqué. Neste sentido, e segundo o ponto de vista de Paulo Gallina, um dos curadores: “(…) a grande narrativa apresentada por La vida de las personas extraordinárias o que se propõe é uma revisão da interpretação da história. Analizando no próprio ato narrativo certo dato ficcional, que destaca aquilo que o autor não pode saber ou conhecer, ou aquilo que foi omitido durante a investigação, e puramente inventado pelo artista. Lema Riqué procura explorar o simples desconhecimento do sotaque de Giuseppe Garibaldi ao falar espanhol para indicar a imposibilidade de descobrir quem era realmente este indivíduo, sua idiossincracia e seus desejos”.

 

TUDO NO SITIO. Precisamente por sua condição de jogo no limíte da veracidade, a condição de documento não é necesariamente transferível a obra gráfica de Lema Riqué, mas sim interessa e muito  a dimensão de cosmogonia iconográfica que dispara sua investigação, ja que não é precisamente uma novidade a função didática que soube cumprir a imagem na construção de mitos fundacionais e de identidade do século XIX. Se a proposta construtiva de Lema Riqué transita por outros parámentros estéticos que o panteão heroico de pintores como Juan Manuel Blanes, sua condição de roteirista o coloca também, embora de forma mais conscientemente lúdica, num fazedor de mitologias. Neste sentido, o itinerário visual é extremamente acertado na sua disposição espacial e organização das séries, onde os diferentes registros bidimensionais alternam numa espécie de ritmo narrativo  entre a representação expresionista e a fantástica de diversos episódios do sitio, e os pseudo affiches no estilo da gráfica soviética, onde aparecem, para bem ou para mal desta república ficcionada, alegorias das estruturas de poder imperantes. A tensão que respira o conjunto expositivo, com pontos particularmente dramáticos na série “De ahora en adelante solo arbustos”, encontra, por outro lado, acertados momentos de respiro para o espectador, onde o artista joga inteligentemente com a realidade e e o uso de referências culturais que lhe permitem, por exemplo, gerar um diálogo entre a bandeira garibaldina e e escudo do clube de futebol Rampla Juniors. Novamente em palavras de Gallina: “A flâmula do clube Rampla Juniors, peça levada ao interior da sala de exposição motiva ao observador a participar do evento retratado. Lembremos que o estádio do clube está situado frente a  Isla de las ratas”, lugar retratado na série ‘Movimientos preliminares’, onde os tormentos do sitio de Montevidéu são apresentados como uma guerra moderna. Entre a longa espera pela batalha e a rápida passagem do evento surgem imagens que embaçam pequenos anacronismos, ja que a intenção não é relatar exatamente a história de um país ou nação, senão a história de um herói supranacional”.

 

SONHAM AS REPÚBLICAS COM DISTORÇÕES HEREDITARIAS? No meio da caixa de ressonância discursiva que supõem os acrílicos, carvões e impressos de grande formato, a seleção de desenhos em caneta esferográfica correspondente a série “Los sueños de Ricciotti” supõem uma significativa mudança de tom. “As imagens que surgem de Ricciotti Garibaldi, segundo filho de Giuseppe e Anita Garibaldi, são produto dos contos que lhe fazia seu pai na infância para conciliar o sono”, escreve Enrique Aguerre no prólogo do catálogo. A sutileza das láminas que registram os fragmentos dos sonhos oscilam entre a simplicidade do registro de estilizados animais oníricos (lobos, águias, elefantes), que no contexto do relato se identificam como símbolos da tradição heroica da Roma clássica. A esta cadência agrega-se o jogo hiperinformativo que com longos títulos, o artista cria a intensão de interessar e confundir o espectador por partes iguais, reafirmando a sensação de relato inconcluso onde porém percebe-se a  dimensão falida de uma construção de esquema distópico. A multiplicidade de linguagens, colabora em situar o desconcerto a uma razoável distância ( que será, dentro de toda esta fábula, o que devo levar a sério?),  e porêm a incerteza ja está apresentada. As projeções sobre  o alcance da narração necessariamente impactam na constatação de anacronismos que nos atravessam cotidianamente (falemos sem ir muito longe, das construções associadas ao fato de que em alguns dias estaremos festejando o aniversário de um caudilho federal jurando fidelidade a bandeira de um país centralista que é o resultado da secessão de um fragmento virreinal) mas que por serem tão frequentes não percebemos, até que novelados jogos como o de Lema Riqué explodem, literalmente, diante de nossos assombrados olhos.

 

OUVINDO VOCES / INMIGRANT SONG. A inclusão de um registro fílmico de uma performance realizada no Centro Cultural de Espanha, além de gerar uma cadência sonora ao itinerário visual e figurar como contraponto com um breve video de José Nasazzi ( que comparte com Garibaldi o nome e, de certa forma, a condição de capitão, somando pistas aos tour de force, assumidos pelo artista) reforça desde o encontro de linguagens a constatação de vazios e o respaldo em repetições que, como os nomes italianos rigurosamente enumerados pelo artista, falidamente assumem a pretensão de unir os pontos entre fenômenos históricos. Segundo Paulo Gallina, o artista: “Busca investigar o simples desconhecimento do sotaque de Giuseppe Garibaldi ao falar espanhol para indicar a impossibilidade de descobrir quem era realmente este individuo, sua indiossincracia e seus desejos. Fica-lhe então a Garibaldi converter-se numa pessoa extraordinária, vestígios em um livro sobre a luta humana pela igualdade. Converter-se em um homem tão perto a um ideal que tem como corcel um caça F80”.

 

Verónica Panella, Junho, 2017